terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ecocrítica

ECOCRÍTICA

Hildo Honório do Couto
Universidade de Brasília

[O universo inteiro] é um vasto representame, um grande símbolo ..... um argumento ..... necessariamente uma grande obra de arte, um grande poema... uma sinfonia .... uma pintura (Peirce, Collected papers 5.119)


Ecocrítica não é o mesmo que a ecolinguísica, pois esta se insere em uma visão linguística da realidade, como o próprio nome já dá a entender. A ecocrítica faz parte de uma longa tradição literária, ou melhor, de crítica literária. Embora, como vimos, linguística e estudos literários tenham muitos pontos de contato, se não uma história comum, nos últimos anos cada uma tomou caminhos diferentes, de modo que atualmente é difícil especialistas das duas áreas dialogarem. Isso é consequência da fragmentação do conhecimento que se verifica no mundo atual, o que vai na direção contrária do desiderato de algumas correntes de pensamento, como as teorias da física, os sistemas complexos e a ecologia. Um dos objetivos da ecolinguística, e da ecocrítica, é justamente tentar ir contra essa tendência, fornecendo as bases para uma reunificação do conhecimento. Tanto ecolinguistas quanto ecocríticos estudam a sua árvore específica, mas não ignoram o fato de que ela faz parte de uma floresta. Essas bases, naturalmente, são dadas pela visão ecológica do mundo.
Apesar de a ecocrítica não ser ecolinguística, há uma área desta que apresenta muitas afinidades com ela. Trata-se da versão da linguística ecossistêmica que se chama análise do discurso ecológica (ADE). Neste mesmo blog há um texto sobre ADE. Ei-lo:
http://aarvinha.blogspot.com.br/2014/07/linguistica-ecossistemica-critica-ou.html
As ideias defendidas pela ecocrítica existem desde que o ser humano começou a produzir literatura, escrita ou oral. Na literatura latina e na grega, temos inúmeros exemplos. Nas literaturas europeias, sobretudo as latinas, tivemos o movimento do arcadismo, em que se falava da natureza, embora de modo um tanto distanciado e abstrato. Os romances realistas (naturalistas) de final do século XIX defendiam a ideia de que os elementos da natureza estão organicamente associados, sujeitos às mesmas leis. Aliás, algumas de suas referências eram justamente Haeckel, Darwin, Spencer e Taine. Praticamente todas as tradições orais mostram um mundo em que não apenas fauna e flora entram como personagens. Até aspectos do território, como montanhas, rios, lagos podem exercer esse papel.
Mais recentemente, surgiu um movimento chamado de nature writing (escrito sobre a natureza, escritura natural), cujo patrono é Henry David Thoreau (1817-1862). A tendência foi mais forte na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, onde surgiu o movimento conhecido pelo nome de transcendentalismo, cujo representante principal era justamente Thoreau, ao lado de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), do naturalista John Muir (1838-1914) e muitos outros, como Amos Bronson Alcott (1799-1888). Além do envolvimento com as letras, eles literalmente defendiam uma volta à natureza.
Emerson é um conhecido poeta. Vários de seus ancestrais eram ministros de igreja. Ele próprio se tornou ministro da igreja unitária em 1829, tendo renunciado ao cargo por considerar que não poderia exercê-lo em sã consciência. Estabeleceu-se em Concord, Massachusetts, em 1833, como escritor e conferencista. Seu primeiro livro publicado foi Nature (1836), no qual já se pode ver o essencial do transcendentalismo americano. Juntamente com Thoreau e Alcott, percebeu que o conhecimento espiritual podia ser recebido diretamente pela razão, mediante a intuição humana. Com Margaret Fuller e George Ripley, fundou o periódico Dial, destinado a publicar textos dos transcendentalistas. Em todos os seus escritos nota-se um desejo de harmonia com a natureza. Geralmente, os fatos naturais são os principais personagens de seus escritos, tanto em poesia quanto em prosa.  Vejamos o poema "Fable", reproduzido de Williams (1966: 347-348). No lado esquerdo temos o poema original; no direito, uma tradução literal.

      Fable                                                                              Fábula
The mountain and the squirrel                              A montanha e o esquilo
Had a quarrel;                                                       Tiveram uma discussão;
And the former called the latter "Little Prig".      A primeira chamou o último de "Pequeno arrogante".
Bun replied,                                                          O pequeno respondeu
"You are doubtless very big;                               "Você é certamente muito grande
But all sorts of things and weather                      Mas toda sorte de coisas e tempo
Must be taken in together                                    Precisam ser juntadas
To make up a year                                               Para se fazer um ano
And a sphere.                                                       E uma esfera.
And I think it's no disgrace                                  E eu acho que não é nenhuma infelicidade
To occupy my place.                                           Ocupar o meu lugar
If I'm not so large as you,                                   Se eu não sou tão grande como você,
You are not so small as I,                                  Você não é tão pequena como eu,
And not half so spry.                                         Nem a metade tão ágil
I'll not deny you make                                       E não vou negar que você faz
A very pretty squirrel track;                              Uma boa estrada para esquilo;
Talents differ: all is well and wisely put;          Os talentos diferem: tudo está bem e sabiamente posto;
If I cannot carry forests on my back,                Se eu não posso carregar florestas em minha costas,
Neither can you crack a nut"                            Tampouco você pode quebrar uma noz".


Note-se que os versos de número 12 e 13 (Se eu não sou tão grande grande como você / Você não é tão pequena como eu) antecipam algo que os ecolinguistas viriam a defender, ou seja, a ideia de que "grande" não significa melhor do que "pequeno" (Fill 1993: ).
Throreau foi talvez um dos naturalistas mais radicais do grupo. Ele era ensaísta, filósofo e naturalista. Morou dois anos na casa de Emerson, que o pôs em contato com outros intelectuais da região que tinham ideias semelhantes. Assumiu a direção de Dial por um curto período em 1843. Em 1845, ele construiu uma cabana na praia de Walden Pond, onde viveu sozinho durante dois anos com o que conseguia arranjar com as próprias mãos. Walden (1854) virou o nome de um de seus livros mais conhecidos. Nesse período, estudou a natureza, meditou sobre problemas filosóficos. Mas, não se isolou como um ermitão misantropo que ele não era. Manteve contato estreito com as pessoas da região. Envolveu-se intensamente na política da época, até contra a escravidão, tendo preferido, juntamente com Alcott,  ir para a prisão a apoiar a Guerra Mexicana (1846-1848). Em Desobediência civil (1849), ele discutiu a questão da resistência passiva, como faria Mahatma Gandhi (1869-1948) mais tarde. Morreu de tuberculose, talvez consciente de que as doenças também fazem parte da natureza.
O percurso de Thoreau lembra muito o do filósofo norueguês Arne Naess (1912-2009), que até próximo da morte praticou montanhismo. Naess é o criador da chamada ecologia profunda (deep ecology) que defende a igualdade de todos os seres, que teriam valor em si mesmos. Ele era seguidor das ideias de Gandhi. Não é para menos que viveu grande parte de sua vida em uma cabana no alto de uma montanha nas proximidades de Oslo, praticando o que os escandinavos chamam de friluftsliv, literalmente "vida ao ar livre" (Sandell 1993, Henderson 1997). Mas, nada disso é novidade: entre os gregos já havia o exemplo de Diógenes de Sinope, o cínico, que, já antes de Cristo, fora até mais radical do que Thoreau e Naess.
John Muir não era nem da literatura nem da filosofia; ele era botânico, glaciologista, naturalista e ecologista. Mas, antes de tudo era um conservacionista. Não é para menos que tenha se aliado aos transcendentalistas, sobretudo Emerson e Thoreau. Junto com eles, estava convicto da necessidade de não se distanciar da natureza. Ele quase sempre levava textos desses autores em suas constantes incursões pela serra Nevada e outros lugares. Nos meios literários e filosóficos, Muir é menos conhecido do que Emerson e Thoreau, mas entre os ambientalistas é tão reverenciado quanto eles. Com efeito, ele defendia abertamente a cura pela natureza. Aconselhava os urbanitas a fugirem da vida nas grandes cidades de vez em quando, mesmo que não gostassem disso. Para ele, mesmo assim o efeito benéfico se manifestaria (cf. Miles 1986: 11). Na América do Norte existem diversas instituições que levam seu nome, tais como ONGs, clubes, associações, companhias de turismo, movimentos conservacionistas e assim por diante.
Fiquemos aqui no que tange ao transcendentalismo. Quem quiser mais informações sobre ele, pode consultar Howard (1964), Miller (1957) bem como qualquer livro de história da literatura norte-americana. Vejamos agora o que vem a ser nature wringing.
De acordo com Lyon (1996: 276), "a literatura da natureza apresenta três dimensões principais: informação sobre a história natural, respostas pessoais à natureza e interpretações filosóficas da natureza". Nesse sentido, os três autores recém-mencionados são legítimos nature writers. Lyon apresenta uma classificação de textos e autores que se enquadram nessa categoria. Entre os tipos de textos temos: 1) guias e textos profissionais, tais como Systematic geology (1878) de Clarence King, A field guide to animal tracks (1954) de Olaus Murie,  A field guide to Western birds (1961) de Roger Tory; 2) ensaios de história natural, como Studies in the Sierra (1874-1875) de John Muir, The sea around us (1950) de Rachel Carson, The land above the trees (1972) de Ann Zwinger & Beatrice Willard, Spirit of survival (1974) de John Hay; 3) textos sobre a vida solitária em rincões distantes da zona rural, como Walden (1854) de Thoreau, entre outros; 4) viagens e aventuras como Travels (1791) de William Bartram, The Maine woods (1865) de Thoreau, Arctic dreams (1986) de Barry Lopez, etc.; 5) vida na fazenda, entre eles, A continuous harmony (1972) de Wendell Berry; 6) o papel dos humanos na natureza, como Accepting the universe (1920) de John Burroughs; 7) passeios sem destino, como Rambles of a naturalist (1828) de John D. Godman, From Laurel Hill to Siler's Bog de John K. Terres e outros. O fato é que a nature writing não entra em nenhuma classificação rígida. Em princípio qualquer texto que verse sobre uma experiência direta com a natureza se enquadraria nela.
A tendência da nature writing se manifestou em diversos outros países. Aliás, a própria nature writing americana teve influências da Inglaterra, sobretudo de A natural history of Selbourne (1789) de Gilbert White. Poderíamos mencionar também a Estônia. Segundo Maran & Tüür (2001), a relação dos estonianos com o meio ambiente vem sendo representada em textos desde o final do século XVII e começo do XIX, como fizeram Otto Reinhold von Holtz (1757-1828), Otto Wilhelm Masing (1763-1832), e como se pode ver na poesia pastoril de Kristjan Jaak Peterson (1801-1822). Frequentemente, essa atitude tinha por pano de fundo uma afirmação da identidade estoniana, segundo a qual, para se auto-designarem os estonianos usavam expressões como "povo da terra" ou então se referiam à língua como "a língua da terra". Conhecimentos relacionados com a oralidade foram recolhidos por Jakob Hurt (1839-1907), nos quais se notam observações sobre sinais da natureza e mudança de tempo. Chegou-se a dizer que os estonianos são "povo da natureza".  Com o advento do regime soviético, por incrível que pareça, essa tendência naturalista se acirrou, "ideias sobre proteção da natureza e de proteção da nação estoniana se fundiram".
O fato é que o apego à natureza continuou nos intelectuais estonianos, quase sempre levando-se em conta o conhecimento científico. Uku Masing destoa deles, apresentando uma visão mais intuitiva e autobiográfica, como em Lembrança de plantas. Uma das imagens mais presentes em sua poesia é a da árvore, não no sentido do dendrólogo, mas no do dendrófilo. Ele não gostava das pessoas para as quais "o nome era mais importante do que a própria árvore". Alan Drengson (1984) afirma que "uma árvore, p. ex., pode ser vista como um objeto, mas pode também ser vista como um elemento estético (...) de uma tapeçaria maior, que faz parte do grande espírito da beleza natural que anima rituais e cerimônias que celebram a grande obra de arte da natureza".
No Brasil, quem mais se aproxima do que fizeram Emerson, Thoreau e Muir é Mário Palmério (1916-1996). Além de professor, construtor de escolas e faculdades, político e diplomata, isolou-se em uma fazenda de sua propriedade em Mato Grosso, onde terminou Chapadão do Bugre (1966). Antes, já havia produzido Vila dos confins (1956). Durante vários anos percorreu os rios da Amazônia em um barco, colhendo dados da flora, da fauna e da cultura dos povos locais. Permaneceu lá até 1987, retornando a Uberaba, onde passou a presidir as Faculdades Integradas. Há diversos outros escritores que apresentam de modo vivo dados do meio ambiente onde residem, mas não viveram esse meio ambiente como os autores norte-americanos.
Nesse contexto, o poeta russo Postnikov (2001) acrescenta o que chama de eco-poesia, que retrataria "o sentimento sagrado de unidade com a natureza". Postnikov cita vários exemplos, começando pela poesia chinesa do período Tan (618-907). Ele considera os haicais japoneses, localmente chamados de haiku, uma continuação dessa tendência, poemas curtos de 17 sílabas, que falam de aspectos da natureza. Um dos primeiros e mais famosos representantes é Matsuo Basho (1644-1694), cuja posição frente à natureza antecipou de séculos a de Thoreau. Eis um exemplo de haicai de Basho de 1666, em japonês e com tradução portuguesa (cf. Basho 1997).

  samazama no       quantas memórias
  koto omoidasu    me trazem à mente
  sakura ka na       cerejeiras em flor

Arran Stibbe acrescenta que os haicais são um ótimo exemplo de manifestação linguística em que se pode ver uma alternativa ao discurso ecologicamente correto. Trata-se do ativismo poético, que emerge do "poder da língua de fazer coisas novas e diferentes serem consideradas importantes", contrariamente à higiene verbal, com suas proscrições e prescrições, que cheiram a totalitarismo e fascismo. Stibbe apresenta o seguinte haicai de Uejima Onitsura:

  gyozui no              Nenhum lugar
  sutedokoro naki    para jogar a água do banho
  mushi no koe        som de insetos

Stibbe acrescenta que para se entender esse poema, é preciso conhecer a cultura japonesa. Nas casas tradicionais, não havia sistema de encanamento de água, com o que Uejima tinha que jogar a água do banho para fora. No entanto, ele ouviu o som dos insetos, do que teria deduzido que se jogasse a água fora da casa, perturbá-los-ia. Subjacente a tudo isso está a ideia de que todas as espécies vivas têm valor em si mesmas, e devem ser respeitadas, como apregoa  ecologia profunda, de que The trumpeter é o órgão oficial (http://trumpeter.athabascau.ca/index.php/trumpet ). O haicai de Uejima revela a sensibilidade para esse fato de modo lacônico, mas altamente poético. Portanto, sem ser autoritário como a chamada higiene verbal, o haicai chama a atenção para fatos ecologicamente importantes de modo suave e natural (Stibbe 2004a).
Como se pode ver, o objetivo nos haicais não é convencer se a natureza é boa ou má, mas de que ela é simplesmente natureza, e como o poeta capta um de seus aspectos. Postnikov acrescenta ainda, entre os que produziram eco-poesia, Walt Whitman (1819-1892), Rabindranath Tagore (1861-1941), Wolfgang Goethe (1749-1832), entre outros.
Voltemos à ecocrítica propriamente dita. Glotfelty traça sua história recente. Em 1985, Frederick O. Waage organizou a coletânea Teaching environmental literature: Materials, methods, resources. Em 1989, Alicia Nitecki fundou a The American Nature Writing Newsletter e, em 1990, a University of Nevada, Reno, criou a primeira disciplina Literatura e Meio Ambiente. No ano de 1991, houve uma sessão especial da MLA, organizada por Harold Fromm, sob o título de "Ecocriticism: The greening of Literary Studies". No simpósio de 1992 da American Literature Association, Glen Love organizou a mesa-redonda "American Nature Writing: New Contexts, New Approaches". Ainda em 1992, fundou-se a Association for the Study of Literature and Environment (ASLE), durante o encontro anual da Western Literature Association. No site da ASLE (https://www.asle.org ) há muito material de interesse para a área. Em 1995, houve o primeiro encontro da ASLE em Fort Collins, Colorado. Atualmente, existem diversas associadas da ASLE em todo o mundo, inclusive no Brasil, presidida por Zélia Monteiro Bora (http://asle-brasil.com/ ). Até o presente momento (2017), já houve três ediçoes do Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica (CILE) na Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa. Em 1993, Patrick Murphy fundou a revista ISLE: Interdisciplinary Studies in Literature and Environment.
Como se pôde ver, o ambiente para o advento da ecocrítica começou a ser preparado há muito tempo. O próprio termo "ecocrítica" foi cunhado por William Rueckert no final da década de 70 sob o nome de "ecocriticism" em inglês (cf. Rueckert 1996). Mas, em épocas anteriores há diversas manifestações que vão na mesma direção, como se pode ver na coletânea Glotfelty & Fromm (1996). No entanto, foi só na década de 90 que o movimento que leva o nome de ecocrítica tomou fôlego e deslanchou.
Quando se fala em ecocrítica, os dois nomes que vêm à tona de imediato são o de Lawrence Buell e Cheryll Glotfelty. O primeiro é autor de The environmental imagination: Thoreau, nature writing, and the formation of American culture (Cambridge: Harvard University Press, 1995), a que não tive acesso. A segunda é talvez a líder do movimento, sendo também coautora principal de uma coletânea sobre o assunto (Glotfelty & Fromm 1996).
Nessa coletânea, há diversos ensaios cujo objetivo é responder à pergunta "O que é ecocrítica?". Com o fito de dar respostas preliminares à pergunta, eu vou partir do que diz Glotfelty na Introdução. De acordo com ela, "posto de modo simples, ecocrítica é o estudo das relações entre literatura e meio ambiente físico". Acrescenta que "assim como a crítica feminista examina a linguagem e a litertura da perspectiva da consciência sobre gênero, e a crítica marxista enfatiza os modos de produção e a questão de classe econômica na leitura dos textos, a ecocrítica assume uma postura terrocêntrica nos estudos literários" (p. xviii). Em suma, os ecocríticos parecem até mais radicais do que os ecolinguistas, uma vez que os últimos raramente relacionam língua diretamente com meio ambiente físico. Uma das raras exceções é o que se vê no ramo do ramo da ecolinguístca chamado linguística ecossistêmica. Nele temos o ecossisema natural da língua que, como o nome já diz, tem a ver justamente com as relações entre a língua e o meio ambiente físico (mundo, entorno). 
Glotfelty acrescenta algumas perguntas que os ecocríticos frequentemente se fazem, ao analisar um texto. São elas: 1) "Como a natureza está representada neste soneto? 2) Que papel o cenário físico exerce no enredo deste romance? 3) Os valores expressos nesta peça são consistentes com a sabedoria ecológica? 4) Como as nossas metáforas sobre a terra influenciam o modo pelo qual a tratamos? 5) Como podemos caracterizar a escrita natural como um gênero? 6) Os homens escrevem sobre a natureza diferentemente das mulheres? 7) Como e até que ponto o próprio letramento afetou a relação da humanidade com o mundo natural? 8) Como o conceito de mundo selvagem mudou ao longo dos tempos? 9) Como e para que a crise ambiental vem se imiscuindo na literatura contemporânea e na cultura popular? 10) Que concepção da natureza está imbuída nos relatórios do governo, nos anúncios das grandes corporações industriais, nos documentários televisivos sobre natureza, e com que objetivo? 11) Que influência poderia a ciência da ecologia ter sobre os estudos literários? 12) Até que ponto a própria ciência é passível de análise literária? 13) Que vantagens mútuas seriam possíveis entre estudos literários e discurso ambiental em disciplinas relacionadas como história, filosofia, psicologia, história da arte e ética?" (p. xviii-xix). Buell (1999) acrescenta mais seis características, que basicamente se sobrepõem às de Glotfelty.
Como reforço à definição dada acima, a autora afirma que "toda crítica ecológica contém a premissa fundamental de que a cultura humana está ligada ao mundo natural, afetando-o e sendo afetada por ele".  O que é mais, "a ecocrítica expande a noção de 'o mundo' a fim de incluir toda a ecosfera". Como se vê, a ecocrítica, assim como a ecolinguística e, certamente, todas as disciplinas eco-, é multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar. Com isso, ela "consiste não de um paradigma metodológico central de pesquisa, mas de um compromisso multiforme com a urgência de reabilitar o que foi efetivamente  marginalizado pelas concepções sociais dominantes" (Buell 1999). Em suma, a ecocrítica se identifica não tanto pela teoria, mas pelo objeto de estudo, o que Sarver (1994) também deixa explícito, embora ache que a ecocrítica está relacionada mais com o ambientalismo do que com a ecologia, contrariamente ao que Glotfelty e Buell e outros afirmaram.
No que tange a exemplos de análises ecocríticas de obras, literárias ou não, poderíamos lembrar a maioria dos ensaios contidos em Glotfelty & Fromm (1996). Entre eles, eu gostaria de ressaltar a análise que Harold Fromm (1996) faz da carta de uma leitora a propósito de textos dele próprio sobre poluição. Eis a tradução da carta (na imprensa brasileira podemos respigar cartas de leitores semelhantes a essa aqui e ali):

Prezado senhor,
Uma vez que todos os ambientalistas que se preocupam com a poluição também são consumidores dos produtos dessas plantas arrotadoras (por exmplo, os automóveis nos quais o senhor chega a sua fazenda), qual É a resposta? Devemos cortar nosssos narizes para evitar que repiremos? Devemos destruir nossa economia: eliminar muitas necessidades da vida; voltar a viver em tendas em prol do ar puro? As respostas são complexas.

Reconhecendo que se trata de uma carta perturbadora, vinda de alguém sensível ao problema da poluição, Fromm demonstra que a autora não captou a essência da questão. O que ela entende por "necessidades da vida"?. O autor argumenta que para ela "necessidades da vida" são as coisas que se referem apenas àquilo que suporta o que ela considera importante para si como ser mental, seu ego. Ela não pensa que o ar puro é base para a vida. De acordo com ele, "ela ingere alimentos, bebe água, respira ar, mas não vê esses atos como bases para a vida. Eles seriam atos que apenas coincidiriam com sua vida, uma vez que sua vida são seus pensamentos e desejos. A pureza dos elementos que viabilizam sua vida não é vista como necessidades da vida. Sua existência no mundo de algum modo toma conta de si mesma; nesse caso, para que sacrificar 'necessidades' da vida 'em prol' de superfluidades como 'ar puro'". O autor continua a análise. Basta, no entanto, lembrar que, para a zelosa leitora, necessidades da vida são aquelas que o consumismo capitalista criaram. Os alimentos vêm do supermercado, a temperatura vem dos aparelhos de ar condicionado, a água vem das torneiras e assim por diante. Fromm salienta que as coisas ficariam mais claras se formulássemos as perguntas de modo mais contundente: "Devemos deixar de fumar para evitar câncer de pulmão?" ou "Devemos deixar de fumar para permanecer vivos?". Ele conclui que as 'necessidades' a que a leitora alude não são necessidades do ponto de vista da existência biológica.
Tudo isso se deve ao distanciamento que mantemos da natureza na atualidade. Nosso contato com ela se dá por extensões, como dizia Marshall McLuhan (McLuhan & Fiore 1967). Hoje as pessoas acampam levando geladeiras, televisão, aparelhos de ar condicionado e tudo mais, além de caixas acústicas que fazem tremer as folhas das árvores e deixam os animais das redondezas com medo. Sanders (1996) relata o caso de uma família que encontrou em um acampamento, dentro de um "trailer", bem distante dos pinheiros, com as portas e cortinas fechadas, o ar condicionado ligado, vendo um filme de Tarzan. Fromm (1996: 32-33) acrescenta que "o homem ocidental vive alheado da natureza, exceto quanto irrompe um terremoto ou um caso de câncer. Ele vive inconsciente de que suas ligações inextricáveis com a natureza estão artificialmente veladas pela tecnologia moderna. Mesmo quando interpretamos a natureza, interpretamos uma ficção, um mito. Melhormente, "descrevemos imagens, não realidades" (Byerly 1996: 57).
O livro intitulado Introducción al la poesía más que humana de Pablo Antonio Cuadra: Un estudio ecocrítico, Steven White faz uma  detalhada análise da obra desse poeta nicaraguense de uma perspectiva ecocrítica. Na Monash University, Austrália, há projetos de estudo ecocrítico da obra de Miguel Delibes e da literatura pastoril espanhola. Em algumas universidades já vêm sendo defendidas dissertaçõe de mestrado e teses de doutorado. Enfim, já existe alguma coisa, inclusive em espanhol e em português, como o livro Ecocrítica de Greg Garrard (Brasília: Ed. UnB, 2006) embora, nesta última língua ainda se trate de tateantes tentativas de aproximação ao tema. Pode até haver outras (e deve havê-las) que eu desconheço.
Retomemos a idéia do poeta estoniano Uku Masing mencionada acima de que a árvore é mais importante do que seu nome. Pelo menos para os ecologistas profundos (não necessariamente radicais), diversos aspectos da natureza são mais bonitos do que algumas obras de arte. Assim, a maior e mais imponente obra arquitetônica com que temos contato é a nossa grande casa terráquea. Seu teto é constituído pela abóbada celeste, seu piso é o próprio chão sobre o qual vivemos e suas paredes são os limites do horizonte. Na literatura oral crioula da Guiné-Bissau, isso está representado na seguinte adivinha (Couto 2005):

N tene un kasa garandi; i ten tetu, ma i ka ten firkija / seu
"Eu tenho uma casa grande, que tem teto, mas não tem esteios (forquilhas) / céu'

Ao falar em adivinhas, entramos no domínio da literatura oral. Em todas as suas manifestações, não apenas seres humanos, mas também animais, plantas, rios, lagos, montanhas e outros aspectos físicos do meio ambiente entram em ação. Nas fábulas contidas em Montenegro & Morais (1979), temos, por exemplo, "Kamaradia ka bali' (Amizade não é possível), em que há uma disputa entre a serpente irã-cego (parecida com a sucuri) e o fogo. Na fábula "Tchon ku deus' (A terra e Deus), a terra tenta mostrar que é mais poderosa do que Deus, e se dá mal. Nas demais fábulas da coletânea, toda sorte de personagens entram em ação. Para o caso das narrativas orais, dos provérbios e das adivinhas crioulo-guineenses, pode-se consultar Montenegro (1995, 1996), além de Montenegro & Morais (1979).
Vejamos o que dizem Montenegro & Morais (1979) a propósito das adivinhas, reproduzido em Couto (2005). "No mundo das adivinhas tudo é permitido. Sem pedir licença, pedras, rapazes, bombolons e formigas entram e saem uns nos outros, uns dos outros, numa troca de papéis que não ameaça deter-se e está sempre a começar. A natureza mete-se no corpo das pessoas e desloca-se através dele à vontade, os objectos têm fôlego de pecador [= ser humano]. A abelha é uma rapariga que está sempre a cozinhar um mesmo prato delicioso, todo o formigueiro bate palmas cada vez que alguém passa, o rosto é uma casa com janelas nos olhos e estes costumam ser amigos; mas nem sempre - às vezes dormem na mesma casa sem se conhecer". Alhures, a autora afirma que "a adivinha veicula normalmente, numa forma leve e sugestiva, conhecimentos que correspondem às necessidades da vida no meio em que circulam", para "dar-lhe o sentido exacto no confronto com a realidade". Enfim, "as situações e imagens mais correntes nestas adivinhas dizem respeito à vida e ao trabalho das pessoas no campo". Tirando-se o antropocentrismo, que os ecologistas rechaçam, trata-se de um verdadeiro comentário ecocrítico avant la lettre.
De acordo com Manes (1996), nas culturas animistas, não só pessoas, mas também animais, plantas, e até mesmo entidades "inertes" como pedras, rios e toras de madeira comunicam intra- e interespecificamente. Todos têm linguagem. Todas essas narrativas são muito mais importantes como criação do que muitos romances de renomados escritores. Mas, as "obras" da natureza sobrepujam criações humanas em outras áreas, como passaremos a ver sucintamente. Silko (1996) analisa narrativas dos habitantes dos pueblos da América do Norte. Branch (1996) fala da escritura natural em três autores americanos, ou seja, Bartram, Wilson e Audubon. Norwood (1996) trata de três autoras que, de modos diferentes, relataram suas experiências com a natureza. Slovic (1996) também trata do assunto.
Há milhares, se não milhões, de aspectos da natureza que maravilham seus visitantes. Um primeiro que eu gostaria de aduzir é o pôr-do-sol visto da ponte sobre o rio em Barra do Garças (MT). Na verdade, essa vista é muito mais esplendorosa do que o quadro Trigal com corvos de Van Gogh, por exemplo. O Grand Canyon (Byerly 1996: 59), as Cataratas do Iguaçu, o Kilimandjaro e o Mongte Fuji são muito mais belos do que qualquer obra arquitetônica que se vê por aí. Outros exemplos seriam a visão do mar, a aurora boreal, um vale verdejante, o deserto do Sahara etc. Como se pode ver no texto do cunhador da expressão "ecocrítica", William Rueckert, para Ian McHarg a natureza é criativa. Assim, "plantas verdes, por exemplo, contam-se entre os organismos mais criativos da face da terra. Elas são os poetas da natureza". Enfim, "os poemas são plantas verdes entre nós" (Ruckert 1996: 111). Os seguidores da ecologia profunda de Arne Naess chegariam mesmo a inverter a formulação, dizendo que "as plantas são poemas" (dendro-poemas, diria eu), se bem que alguns considerariam isso uma manifestação do antropocentrismo, e que as plantas são pura e simplesmente plantas.
Da perspectiva da ecologia, sobretudo da ecologia profunda, deve ser ressalvado que nem sempre apenas aquilo que o senso comum considera "belo" é efetivamente magnífico, grandioso. Mary Austin, por exemplo, considerava como admiráveis inclusive cobras, desertos, tempestades e semelhantes. Aliás, ela morava numa região desértica, mas não vivia reclamando da inclemência do tempo, como a maioria das pessoas faz. A propósito, quem não sente uma certa "beleza" no relâmpago, no trovão e na imagem de um tornado? (Norwood 1996: 331-334). O próprio Darwin (1951) afirmou que "a seleção natural é tão incomensuravelmente superior às insignificantes realizaçõs humanas, quanto obras da natureza são superiores às obras de arte" (67). Em outra passagem, ele afirmou que "até certo ponto, podemos entender como é que existem tantas belezas em toda a natureza" (447). Um outro estudioso da linguagem da natureza que a considera obra de arte é Uexküll (1940). Ao longo de toda a obra, ele fala do ambiente de cada ser vivo, salientando a significação de uns para os outros. Se Darwin sempre usava a metáfora "economia da natureza", Uexküll usa a metáfora das obras de arte, sobretudo a música. Por exemplo, no capítulo IX, ele fala em sinfonia da natureza, com seus pontos e contrapontos, com seus instrumentos e respectivos papéis no contexto da sinfonia. Citando Goethe, Uexküll afirma que "a flor e a abelha se relacionam ao modo de um contraponto". Lutzenberger (1991: 79-86) defende ideias semelhantes.
O meu objetivo ao salientar os "quadros", as "esculturas" e as "obras arquitetônicas", ou seja, algumas maravilhas da natureza, não é diminuir o valor das grandes obras de arte que compõem o acervo histórico da cultura mundial. Pelo contrário, o que eu quis mostrar é que, pelo menos para algumas pessoas, o ambiente construído não é necessariamente mais bonito nem, muito menos, mais precioso do que o ambiente natural. Antes de haver ambiente construído já havia ambiente natural, e após o desaparecimento (em grande parte pela intervenção predatória dos humanos) do ambiente construído ainda haverá ambiente natural, seja lá como for que ele se apresente da perspectiva humana.

Nota
Este texto é uma versão revista e ampliada do último capítulo de meu livro Ecolinguística: Estudo das relações entre língua e meio ambiente (Brasília: Thesaurus, 2007, p. 434-442). O livro está disponível em:
http://www.thesaurus.com.br/livro/1570/ecolinguistica-estudo-das-relacoes-entre-lingua-e-meio-ambiente/

Referências
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1) Revista de ecolinguística: http://periodicos.unb.br/index.php/erbel/index  

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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Linguística ecossistêmica crítica ou análise do discurso ecológica (ADE)

LINGUÍSTICA ECOSSISTÊMICA CRÍTICA ou ANÁLISE DO DISCURSO ECOLÓGICA

Hildo Honório do Couto (UnB)

1. Introdução
A linguística ecossistêmica crítica, como o próprio nome já sugere, faz parte da linguística ecossistêmica, que é a versão da ecolinguística praticada em torno do que veio a ser chamado de Escola Ecolinguística de Brasília. Assim sendo, é importante que antes de mais nada saibamos de que tratam essas diversas disciplinas. Comecemos pela ecolinguística. Ela tem sido definida como sendo o estudo das relações entre língua e meio ambiente. Uma outra definição que tem sido preferida nos últimos tempos é a de que ela é o estudo das relações entre língua e seu meio ambiente. A presença do possessivo “seu” pode parecer de somenos importância. No entanto, ela tem consequências que afetam as próprias bases da teoria ecolinguística.
A linguística ecossistêmica tem esse nome por partir do ecossistema e tudo que lhe diz respeito. Com isso já fica implícito que ela é uma disciplina eminentemente ecológica. Trata-se de uma variante da ecolinguística que tem sido chamada também de ecologia linguística, uma vez que seus partidários se consideram ecólogos, em pé de igualdade com os que praticam ecologia biológica. Do contrário, estaríamos fazendo linguística ecológica, como a esmagadora maioria dos ecolinguistas europeus que, nesse sentido, abandonam a definição original de Haugen (1972). Os partidários da ecologia linguística usam conceitos ecológicos a partir de dentro, ao passo que os da linguística ecológica partem de fora para dentro, ou seja, usam conceitos ecológicos no estudo de fenômenos da linguagem como metáforas.
A linguística ecossistêmica crítica (LEC) é a parte da linguística ecossistêmica que se dedica ao estudo de textos e discursos. Por esse motivo, ela é mais comumente chamada de análise do discurso ecológica (ADE). No que subsegue, poderei usar ora uma, ora outra expressão. Em termos de siglas, usarei LEC, ADE e até ADE/LEC, indistintamente.

2. Ecolinguística
O objeto da ecolinguística foi pioneiramente mencionado por Sapir (1912), mas ela inicialmente definida por Haugen (1972), antes do aparecimento do nome pelo qual é conhecida. No início da década de noventa do século passado ela deslanchou para valer com a publicação de Fill (1987, 1993) e Makkai (1993). Autores como os apresentados na seção 3 mais abaixo a têm definido como sendo o ‘estudo das relações entre língua e meio ambiente’ (Couto 2007). Mais recentemente, porém, ela tem sido entendida como sendo o ‘estudo das interações entre língua e seu meio ambiente’, como se vê nos autores comentados na seção 4. A presença do possessivo ‘seu’ na segunda definição tem profundas implicações epistemológicas. Sem ele, a definição parece deixar implícito que a disciplina trata só de questões de ambientalismo, ou que ela só se dedicaria ao estudo de discursos ambientais. O ‘seu’ da segunda definição indica que se trata das relações que se dão na língua quando considerada em seu meio ambiente que, na verdade, é triplo (natural, mental, social).
Desde seu nascedouro com Fill e seguidores na Europa, a ecolinguística tem se dedicado preferencial e quase exclusivamente ao primeiro tipo de estudo. Tanto que um de seus ramos mais conhecidos é a ecolinguística crítica, de que falarei na seção seguinte. Geralmente ela tem tratado de temas ambientais. No entanto, esse assunto poderia perfeitamente ser tratado também por filósofos, antropólogos, críticos literários (se se tratar de um texto literário que envolva temas ambientais), jornalistas e até pelo leigo. Todo mundo pode dar palpites em questões ambientais. Um bom exemplo de ensaio de ecolinguística crítica avant la lettre é Carvalho (1989). Esse tipo de estudo tem sido chamado também de linguística ecocrítica e linguística ambiental.
Há algumas poucas e honrosas exceções a essa tendência na própria Europa, além da Austrália e dos Estados Unidos. O filósofo da linguagem e ecolinguista alemão Peter Finke tem enfatizado sempre que a ecolinguística não é só “linguística ambiental”. A ecologia pode ser um paradigma para as ciências da linguagem no sentido mais amplo da palavra, ou seja, em sua opinião pode-se estudar qualquer aspecto da linguagem da perspectiva ecolinguística. Nisso Finke é seguido pelo também alemão Wilhelm Trampe e até certo ponto pelo ecolinguista catalão Albert Bastardas i Boada. Como veremos na seção 4, o grande problema com a ecolinguística crítica e congêneres é o tomarem conceitos da ecologia como meras metáforas para o estudo de fenômenos da linguagem, assunto discutido mais detalhadamente em Neves & Bernardo (este volume). A linguística ecossistêmica brevemente exposta na seção 4 procede de modo bem diferente, partindo de dentro da própria ecologia, uma vez que coloca a linguagem dentro do ecossistema (linguístico), não pinçando conceitos ecológicos e os transplantando para a linguística. Mas, antes de entrar nesse assunto, discutamos mais pormenorizadamente a ecolinguística crítica. Em Couto (2014) encontra-se um histórico da ecolinguística.

3. Ecolinguística Crítica
Embora os germes para a ecolinguística crítica já se encontrassem em Fill (1987), uma das maiores influências que ela tem sofrido é da análise do discurso inglesa, sobretudo em ideias de Norman Fairclough. Autores como Richard Alexander e Arran Stibbe referem-se a ele em grande parte de suas produções. A bem da verdade, talvez uns 80% dos ecolinguistas europeus sejam dessa linha. A própria expressão ‘ecolinguística crítica’ surgiu por sugestão da ‘análise do discurso crítica’ de Fairclough. Como já vimos, ela poderia ser perfeitamente também chamada de linguística ecocrítica ou de linguística ambiental.
Fill (1996) salienta que há duas tendências no seio da ecolinguística crítica, que ele chamou simplesmente de ‘ecolinguística’. Em sua opinião, “é possível partir da ecologia e aplicar princípios ecológicos, conceitos e métodos à língua e a sua ciência, mas também a outros sistemas culturais”. Essa linha de orientação teria começado com o próprio Haugen (1972), mas seria praticada também por autores como Wilhelm Trampe, Peter Finke e Hans Strohner, muitas vezes usando a ‘metáfora do ecossistema’. A segunda tendência inverte a direção, “partindo da língua e da linguística, bem como de seus métodos, aplicando-os a temas ecológicos, sobretudo a possíveis causas linguísticas e manifestações linguísticas da ‘crise ecológica’ (crise ambiental)” (p. 3). Essa linha teria começado com a famosa conferência que Michael Halliday proferiu no encontro da AILA em 1990 (cf. Halliday 1990). Nela entraria toda a ecolinguística crítica. Fill salienta ainda os dois líderes da chamada Escola Ecolinguística de Odense, Dinamarca, quais sejam, Jørgen Døør e Jørgen Chr. Bang. Essa orientação representa um tipo de “construtivismo linguístico”.
Em Ramos (2009: 69) temos uma tentativa de distinguir análise crítica de discurso e ecolinguística. De acordo com ele, “enquanto a primeira define como objecto o ‘discurso’, incorrendo, naturalmente, e em consequência disso, na consideração e análise da ‘língua’, a ecolinguística crítica explora em planos de relevo semelhante a ‘língua’ e o ‘discurso’, considerando que é aquela que, em muitas manifestações discursivas, configura um discurso não ecológico, favorecendo visões antropocêntricas do mundo e a separação e ascendência dos seres humanos face aos restantes seres vivos”. Ainda em sua opinião, “são identificáveis na ecolinguística crítica duas linhas de orientação: a par de uma linha que elege o sistema linguístico como objecto privilegiado de estudo, há uma outra que visa a análise discursiva e textual das manifestações verbais”. Nas seções 5 e 6, abaixo, temos mais discussão sobre a ‘análise do discurso (crítica)” comparativamente à ‘análise do discurso ecológica (ADE)” aqui proposta.
  
4. Linguística Ecossistêmica
Seguindo autores como Haugen, Finke e Trampe, entre muitos outros, começou a surgir uma variante da ecolinguística que parte da ecologia de modo radical em dois sentidos: primeiro, por partir do conceito central dessa disciplina biológica, que é o de ecossistema, donde o nome linguística ecossistêmica; segundo, porque a linguística ecossistêmica não toma conceitos da ecologia biológica e os aplica nos estudos da linguagem. Pelo contrário, ela é parte da macroecologia, em condição de igualdade com a ecologia biológica, motivo pelo qual um nome alternativo para ecolinguística em geral é ecologia linguística. Os conceitos centrais da linguística ecossistêmica são exatamente os mesmos da ecologia biológica, como população, território e interações.
O fato é que, como se pode ver no prefixo “eco-”, a ecolinguística é uma disciplina ecológica, inclusive no sentido literal. Se ela é uma disciplina ecológica, devemos começar sua caracterização pela procura dos conceitos centrais da macroecologia, entre os quais se sobressai o de ecossistema. Na ecologia biológica, ele é a totalidade formada por uma população de organismos vivos, seu meio ambiente (habitat, biótopo ou território) bem como pelas interações que se dão tanto dos organismos com o meio quanto das que se dão dos organismos entre si. Na ecologia linguística, a população de organismos é o povo (P), o meio ambiente (físico) é o território (T) e as interações são a língua (L). O todo formado por povo, língua e território é o ecossistema linguístico. Em seu interior, PT constitui o meio ambiente da língua. Tanto o ecossistema linguístico como o meio ambiente da língua que se encontra em seu seio podem ser natural, mental ou social.
Se a língua é constituída pelas interações que se dão no interior do ecossistema linguístico, faz-se necessário examinar esse conceito em pormenor. Na verdade, existem quatro ecossistemas linguísticos. O primeiro deles é o ecossistema natural da língua, que consta de um povo (P) específico, como os kamayurás do Parque Indígena do Xingu, a parte do Parque que eles ocupam como seu território (T) e o meio tradicional de seus membros comunicarem entre si, sua língua (L), que é o kamayurá. No interior desse ecossistema, P e T constituem o meio ambiente natural da língua kamayurá. Mas, a língua se forma, fica armazenada e é processada no cérebro dos falantes. Aí temos o ecossistema mental da língua, constituído pelo cérebro como o locus das interações mentais da língua. As próprias interações se dão nas conexões neurais, no que constitui a mente, que não é nada mais do que o cérebro em funcionamento. No caso, o cérebro e a mente juntos constituem o meio ambiente mental da língua. Mas, para o leigo, a língua é basicamente um fenômeno social. Ecolinguisticamente, o ecossistema social da língua é apenas um entre outros quatro. Ele consta de uma coletividade de indivíduos como seres sociais. A sociedade é o locus das interações entre esses indivíduos sociais. Sociedade mais coletividade formam o meio ambiente social da língua.
Esses três ecossistemas convergem no ecossistema fundamental da língua, também conhecido como ecossistema fundacional da língua. Para o leigo, no entanto, ele pode ser chamado simplesmente de comunidade. Ele é geral, por abranger os três outros. É nele que se fazem as perguntas fundamentais sobre a língua. Uma delas é a que o leigo faz, sempre que ouve o nome de uma língua (em geral) pela primeira vez (L). Sua primeira pergunta é que povo (P) fala essa língua. A segunda é onde se localiza esse povo (T). Como não poderia deixar de ser, o meio ambiente fundamental da língua é PT.
Tudo isso constitui o que se poderia chamar de os galhos e as folhas da árvore da linguagem. O tronco é constituído pela ecologia da interação comunicativa. Ela consta de um falante, que se autodenomina EU, e um ouvinte, que ele chama de TU (VOCÊ). Aquele ou aquilo de que ele fala e/ou aquele ou aquilo que está com ele é ELE1. Aquele ou aquilo que está com o ouvinte ou a que(m) ele se refere é ELE2. ELE1 mais ELE2 constituem ELES. Nas interações concretas, frequentemente ELE1 mais ELE2 e ELES são substituídos por outros nomes, como árvore, nuvem, pessoa, constituição, computador etc., vale dizer, todos os substantivos da língua, os nomes, são substitutos dos pronomes, contrariamente ao que a tradição gramatical quer nos fazer crer. As demais classes de palavras também nascem aí, uma vez que os enunciados produzidos os atos de interação comunicativa contêm ações (verbos), atributos (adjetivos), partículas que unem palavras (preposições) e orações (conjunções) etc. Enfim, todo o vocabulário da língua nasce aí.
Há outras possibilidades combinatórias dos participantes da ecologia da interação comunicativa, algumas das quais são usadas por determinadas línguas, outras não. Por exemplo, o tupi e o guarani distinguem EU + ELE1 de EU + TU. A primeira combinação é o nós exclusivo oré; a segunda, o nós inclusivo jandé. Outras línguas fazem outras distinções, como o crioulo inglês tok pisin, da Papua-Nova Guiné. A língua como interação consta ainda de um conjunto de regras interacionais, formuladas por Couto & Couto (2013), e de outro de regras sistêmicas. Na verdade, as regras sistêmicas (gramática) são parte das interacionais. Tanto as primeiras quanto as segundas existem para eficácia da interação comunicativa. Isso provoca uma reviravolta na visão estruturalista de língua, para a qual língua é basicamente gramática. Ecolinguisticamente, porém, as regras sistêmicas são coadjuvantes das regras interacionais, elas são também interacionais. Por fim, a ecologia da interação comunicativa envolve também um cenário em que o drama dos atos de interação comunicativa se desenrola. É dos atos de interação comunicativa que nasce a língua, ontogenética e filogeneticamente.

5. Linguística Ecossistêmica Crítica
A ecolinguística tem um escopo bastante abrangente, holístico, de modo que nada do que tange à linguagem lhe é estranho. Por isso, a versão dela tratada na seção anterior, a linguística ecossistêmica, apresenta uma variante que se dedica ao discurso, chamada linguística ecossistêmica crítica (LEC), por sugestão tanto da ‘ecolinguística crítica’ quanto da ‘análise do discurso crítica’ de Norman Fairclough. Ela foi proposta pela primeira vez por escrito em Couto (2013). Por tratar de análise do discurso, o nome mais comum para a LEC é análise do discurso ecológica (ADE). Mas, alguém poderia perguntar o que há de diferente na abordagem da ADE/LEC, ou seja, o que ela faz que não poderia ser feito também por essas outras disciplinas. É o que pretendo discutir na presente seção.
Na verdade, há inúmeros ensaios no contexto dessas e de outras disciplinas que têm tratado de questões ambientais. Grande parte dos ecolinguistas tem se dedicado a esse tipo de estudo, como se pode ver nas coletâneas publicadas e nos encontros ecolinguísticos. Já vimos que até mesmo estudiosos de outras áreas têm incursionado pela “análise de discurso ecológico”. O que a ADE propõe é diferente, ela não faz apenas análise de discurso ecológico, antiecológico ou pseudo-ecológico. Pelo contrário, ela faz análise ecológica de discurso. Como parte da linguística ecossistêmica ela é uma disciplina da ecologia que faz estudos de fenômenos da linguagem, não uma disciplina da linguística que faz estudos de fenômenos ecológicos. Ela lembra muito a proposta da ecolinguagem (Matos et. al., este volume). No contexto da análise do discurso crítica já há alguma coisa que vai na direção das ideias da ADE/LEC. Uma delas é a chamada ‘análise do discurso positiva’ (Martin 2004, 2006; Vian Jr. 2010). No entanto, ela continua seguindo as mesmas diretrizes da análise do discurso crítica.
A análise do discurso tradicional, tanto a filiada a Pêcheux quanto a de linha anglo-saxônica, enfatiza sempre a ideologia e as relações de poder. Isso é muito importante, no entanto, a ideologia no caso é a marxista. Em Pêcheux e seguidores, essa ideologia é filtrada pela obra de Louis Althusser, portanto, é radicalmente marxista. A de linha inglesa parte de um marxismo menos radical, filtrado por Gramsci e pela Escola de Frankfurt, mas continua sendo ideologia marxista. Ora, a ideologia marxista tem pelo menos três características que são inaceitáveis em uma visão ecológica do mundo. A primeira delas é a ênfase no conflito, sobretudo entre “classe dominante” e “classe dominada”. Os praticantes de ADE preferem ligar-se à visão de mundo ecológica e às filosofias orientais, como o hinduísmo, o budismo e o taoísmo (Couto 2012). Como no caso de conceitos polares, como bom-ruim, grande-pequeno, escuro-claro etc., a ideologia do conflito os considera como antagônicos, é um contra o outro, é um ou outro. Na visão oriental, eles são complementares. Só existe o bom em relação ao ruim, o grande só frente ao pequeno, o claro apenas comparativamente ao escuro e assim por diante. Isso porque essa filosofia enfatiza a harmonia e tudo que lhe diz respeito, não o antagonismo das ideologias.
A segunda característica do marxismo que a ADE não aceita é o antropocentrismo, que em Marx aparecia sob o manto de humanismo. Se os humanos são os “reis da criação” tudo o mais existe para servi-los, portanto, eles podem usar e abusar de tudo. Essa ideologia está nos levando a um beco sem saída, uma vez que estamos destruindo todas as bases para a vida na face da terra, em uma atitude suicida. A ADE, seguindo a ecologia profunda (Naess 1973, 1989, 2002; Couto 2012: 49-67), defende a autorrealização de todos os seres. Os humanos não têm mais direito à vida do que os demais seres vivos.
O terceiro traço do marxismo que a LEC não pode aceitar é a defesa da ditadura do proletariado. Praticamente todos os países que supostamente adotaram o regime marxista ficaram com a ditadura e deixaram o proletariado de lado. Na verdade, todos os regimes caricaturalmente chamados de “marxistas” são ditaduras hereditárias, como ainda se pode ver nos regimes jurássicos da Coreia do Norte e de Cuba. Uma vez que, segundo se diz, não é possível evitar as ideologias, no caso da ADE podemos falar em ideologia da vida, ou ideologia ecológica, ou seja, aquela que defende intransigentemente a vida e luta contra o sofrimento.
Repetindo, a ADE/LEC, ao contrário da análise do discurso tradicional, põe a ênfase na defesa da vida na face da terra e em uma luta contra tudo que possa trazer sofrimento. É verdade que o sofrimento e a dor são uma proteção que os seres vivos têm contra a morte. Se não existissem a dor e o sofrimento, eles não se importariam com a mutilação do próprio corpo. Por isso, todo ser vivo está sempre à procura do próprio bem-estar, ou da própria autorealização, como se diz na ecologia profunda, e essa autorealização não é nada mais nada menos do que o que os humanos chamam de bem-estar e felicidade. A morte existe para dar continuidade à vida, para que a natureza recicle a matéria de um ser utilizando-a em outros seres vivos. No entanto, pelo menos nas situações em que dor, sofrimento e morte podem ser evitadas, devemos evitá-las. É o que sugere a ADE/LEC.
Em conformidade com as categorias da linguística ecossistêmica, e uma vez que somos seres não apenas animais (natural), mas também temos uma vida psíquica (mental) e vivemos em sociedade (social), devemos fazer distinção entre sofrimento físico (natural), mental e social. O sofrimento físico ocorre quando há ferimentos, mutilações ou outro tipo de agressão física. Todo sofrimento físico é um movimento na direção da morte, que é o sofrimento físico máximo. Procurar a autorealização é evitá-los ou ir contra eles. É preciso, porém, esclarecer que há graus de sofrimento. Um beliscão (físico) pode ser muito menos intenso do que uma tortura mental, xingamentos, assédios etc. Ser difamado e desmoralizado perante a comunidade também é um sofrimento social bem mais forte do que o beliscão. 
Se um estudioso de LEC for analisar um discurso que fale de uma mulher que apanha todo dia do marido que chega bêbado em casa (alguns desses maridos chegam a matar a mulher), ele a defenderá não por ser mulher, como faz a ideologia feminista, nem por se tratar de um ato de machismo em si. Ele a defenderá por ser um ser vivo (humano) que sofre. Assim, ela será defendida partindo de uma causa muito maior do que a justa luta das feministas contra os machistas, como reconhecido na bem-vinda Lei Maria da Penha. O feminismo e o ecofeminismo tratam da questão da mulher pelo ângulo do conflito (ideologia, marxismo), pelo lado do confronto, ao passo que a ADE o faz pelo da conciliação e da harmonia.
Assim procedendo, a ADE estará considerando a mulher uma igual do homem, não seu antagonista. O mesmo princípio vale para o caso de manifestações de racismo, de homofobia, de etnocentrismo etc. No caso de algumas práticas tradicionais como o tratamento que a mulher recebe em alguns países muçulmanos (como a excisão do clitóris), do infanticídio entre alguns grupos ameríndios e assemelhados, temos o dilema de se ficar do lado da vida ou de tradições culturais arraigadas. A posição da ADE é muito clara: ela se posiciona decididamente do lado da vida e contra o sofrimento. Com efeito, tradições culturais mudam, mas a morte é irreversível. No entanto, é preciso ter em mente que a ADE fornece apenas linhas gerais a partir das quais se podem julgar casos particulares. Na verdade, cada caso é um caso, portanto deve ser avaliado no contexto a que pertence, mas sempre tendo como pano de fundo essas diretrizes. O que fazer com o sofrimento da criança que será sacrificada frente ao sofrimento do grupo social se a tradição não se mantiver?
Vejamos sinoticamente algumas características da análise do discurso (AD) e da análise do discurso crítica (ADC) frente às da análise do discurso ecológica. Em primeiro lugar, a AD(C) encara o objeto de estudo do ponto de vista ideológico-político, quando muito psicanalítico, como na AD francesa. A ADE põe em primeiro plano a questão da vida na face da terra, a ecologia, que é parte da biologia. Se é para falar em ideologia, que seja a ideologia ecológica ou da vida. A AD(C) está em sintonia com a filosofia ocidental, que enfatiza a competição (marxismo: conflito), o que pode levar ao ódio, à violência e à guerra. A ADE tem mais afinidade com as filosofias orientais (hinduísmo, budismo, taoísmo) que enfatizam a cooperação, o que leva à harmonia, ao amor. A AD(C) parte do ponto de vista lógico (from a logical point of view), como defende o filósofo americano Willard Quine; ela não refuta nem critica a visão de mundo ocidental, que é reducionista. A ADE parte do ponto de vista ecológico (from an ecological point of view), propugnado pelo ecolinguista e filósofo da linguagem alemão Peter Finke (1996). Esse ponto de vista é abrangente, holístico. Combate a cosmovisão ocidental. A AD tende a apenas analisar e criticar os estados de coisas de que trata, com raríssimas exceções, como a ADC. A ADE analisa, critica e prescreve/recomenda comportamentos que favoreçam a vida e evitem o sofrimento. A AD(C) é humanista, logo, antropocêntrica como o marxismo, cuja filosofia assimila, como se pode ver em Ramos (2009). A ADE é biocêntrica, ecocêntrica, como a ecologia profunda. A AD(C) critica o estruturalismo, sobretudo a gramática gerativa. A ADE critica o estruturalismo, a gramática gerativa e a AD(C). A AD(C) dedica-se a discursos produzidos, logo, a produto, algo feito, coisa, o que significa que ao fim e ao cabo ela implica uma certa reificação da língua. A ADE, por ser parte da linguística ecossistêmica, dá preferência ao próprio processo de produção de discursos (das Fliessen selbst [o próprio fluxo], Fill, 1993). A ecologia da interação comunicativa é o núcleo central da linguística ecossistêmica, e da ADE. A AD(C) dedica-se apenas ao ecossistema social, quando muito chegando até o ecossistema mental, como as tímidas influências da psicanálise em alguns trabalhos em AD francesa. A ADE leva em conta não só o ecossistema social e o mental, mas também o natural, com o que se aproxima da ecocrítica (Couto 2007: 434-442). Ela tende a incluir até mesmo a dimensão espiritual.

6. Categorias da ADE/LEC
Passando à consideração de alguns conceitos ecológicos que podem (e devem) ser usados na análise de textos/discursos, comecemos pelo de diversidade. Sua aceitação implica uma atitude de tolerância para com o outro, sobretudo quando é diferente. A não aceitação implica intolerância, o que pode conduzir à agressividade e à violência, sobretudo contra as minorias de todos os tipos. Sua aceitação pressupõe uma política de cooperação e harmonia, conceito que já está previsto na própria ecologia biológica, no caso, nas relações harmônicas, que podem se dar não só intraespecífica, mas também interespecificamente. No primeiro caso, temos as relações entre os seres humanos; no segundo, entre eles e seres de outras espécies de animais. O contrário seria a subordinação dos mais fracos aos mais fortes e a consequente imposição da vontade dos segundos sobre os primeiros. Como se vê, aqui entra a questão do poder. Isso pode levar ao fundamentalismo que, como sabemos, frequentemente chega até à violência. Por isso, a ecologia profunda que inspira a ADE recomenda uma atitude à la Gandhi (uma das fontes de inspiração da ecologia profunda), isto é, firme, porém, não violenta. Enfim, a ADE/LEC respeita a diversidade natural, mental e social. 
Intimamente associada à diversidade temos a questão das interações (inter-relações, relações). No interior do ecossistema, nada está isolado, tudo está de alguma forma relacionado a tudo, direta ou indiretamente. Havendo uma diversidade de seres e inter-relações, pode-se dizer do próprio ecossistema que ele é uma cadeia ou teia de inter-relações que se dão entre organismos, entre organismos e meio, e assim por diante. Haverá tanto mais relações quanto mais diversidade de organismos e de meios houver no ecossistema, de modo que os dois conceitos estão intimamente inter-relacionados. As interações estão intimamente associadas à harmonia do todo, donde o holismo, uma vez que é em seu interior que elas se dão. Elas são multilaterais, multipolares e pluricêntricas. Os totalitarismos, ao contrário, são monocêntricos e centrípetos, motivo pelo qual muitas vezes levam ao conflito, uma vez que não aceitam a diversidade que as inter-relações multilaterais implicam.
Ainda na dinâmica das inter-relações, há uma constante adaptação de organismos ao meio e do meio aos organismos, além das adaptações dos próprios organismos entre si. A adaptação do meio aos organismos era menor no começo filogenético da vida, mas vem se intensificando a cada dia que passa, sobretudo devido ao desenvolvimento tecnológico (essa adaptação pode levar a um beco sem saída). O mundo e a cultura (inclusive a língua) são dinâmicos, estão sempre mudando, se adaptando às novas situações que a natureza (e a cultura) lhes apresenta. Não se adaptar é oferecer resistência, o que pode também levar à desarmonia, ao conflito e à violência, quer contra outros seres humanos, quer contra os demais seres vivos e à natureza em geral, como se vê nas ações predatórias. A visão darwinista falava em competição e sobrevivência do mais forte. As novas pesquisas em ecologia têm mostrado que sobrevive mais aquele que se adapta mais, não necessariamente o mais forte. Se fosse assim, os dinossauros não teriam desaparecido. Adaptar-se é procurar viver em harmonia com o meio e com o outro, conceito central do taoísmo e, indiretamente, da ecologia profunda.
Adaptação é a cara da moeda cuja coroa é a evolução. Hoje em dia é sobejamente sabido que a evolução se dá ciclicamente. Tudo na natureza se move em ciclos. Veja-se a alternância dia/noite, as estações do ano, o ritmo biológico de nosso organismo, entre outros. Na própria cultura, aí inclusa a linguagem, as mudanças se dão por ciclos. Basta observar a moda. Quantas vezes já não vimos os estilistas, os que ditam a moda, dizerem que agora o chique é o que se fazia nos anos 60 ou nos anos 80, por exemplo? Basta criar-se um termo para designar isso, como retrô, por exemplo. Em Couto (2012: 179-199) há alguns exemplos de evolução cíclica na literatura e na linguagem. Com isso, entramos no domínio da reciclagem. Ela tem a ver diretamente com o consumismo capitalista desenfreado. Só recicla quem tem consciência de que o consumismo e a descartabilidade são prejudiciais à manutenção da vida na face da terra, sobretudo a longo prazo. Para agir assim, é necessário que se pratique uma economia sustentável, que leve a ecologia em consideração.
A ideologia ecológica defende os três ‘r’, ou seja, redução, reutilização e reciclagem. Descartar tudo em vez de reduzir, reutilizar e reciclar exige uso e abuso dos recursos da natureza, e não só da natureza viva, além de poluí-la. Nossa intervenção nela está se intensificando a cada dia que passa e se tornando cada vez mais predatória. Isso traz sofrimento aos seres vivos, como o consumo exagerado de carne, que exige o sacrifício de centenas, de milhares, de milhões de animais. A própria criação extensiva de gado de corte, e até de leiteiro, exige o estabelecimento de imensas pastagens, com uma única espécie de gramínea ou capim, a braquiária, por exemplo, o que implica um sacrifício (morte) na diversidade da flora e até da fauna. Para reduzir a última, como no caso dos insetos, recorre-se aos pesticidas. Aqui a redução é prejudicial, uma vez que reduz a diversidade de seres vivos no ecossistema, vale dizer, provoca sua morte e, frequentemente, aniquilamento, além de matar os organismos que consomem os insetos.
Voltando à visão holística, ao todo do ecossistema, notamos que nessa qualidade ele se inter-relaciona com os ecossistemas vizinhos, fornecendo e recebendo matéria, energia e informação deles. Dito em outras palavras, esse todo apresenta a característica da abertura, às vezes também chamada de porosidade. Essa característica do ecossistema, juntamente com a diversidade, enseja a tolerância para com os de outras espécies, outros grupos étnicos, vai contra o etnocentrismo, o racismo e os demais “ismos” acima mencionados. Ela nos ensina que nada está isolado, portanto, recebe influência de fora, além de enviar seus influxos para fora. Ela nos leva a ser receptivos à ideia do outro, mesmo quando não concordamos com ela. Aceitá-la não no sentido de adotá-la, mas no de respeitá-la. Afinal, o certo e o errado são conceitos criados socialmente, logo, são relativos. Além de esses conceitos não existirem na natureza, variam de comunidade para comunidade e de um segmento social para outro. Aliás, se quisermos usar o conceito de “errado”, ele se aplicaria ao que traz sofrimento como entendido no presente contexto. O que não o traz não pode, legitimamente, ser considerado errado. 
Existem diversos outros conceitos ecológicos de que se pode lançar mão na ADE. Entre eles, temos as já mencionadas relações harmônicas versus relações desarmônicas, tanto intraespecíficas quanto interespecíficas. Entre as relações harmônicas interespecíficas, poderíamos mencionar o inquilinismo, o comensalismo e o mutualismo. No que tange às relações desarmônicas interespecíficas, sobressaem-se o predatismo (predador versus presa) e o parasitismo. Aqui alguém poderia alegar que o predador traz dor e sofrimento à presa. É verdade, no entanto, que isso é parte da cadeia trófica, ou cadeia alimentar. É um modo de a natureza manter o próprio equilíbrio, a própria sustentabilidade. Entre as relações desarmônicas intraespecíficas, poderíamos trazer à baila a competição, que se dá também nas interespecíficas. Aquilo que se chama comunhão em linguística ecossistêmica (pressuposto para a interação comunicativa) se enquadra nas relações harmônicas intraespecíficas. Enfim, na própria ecologia geral, bem como em suas vertentes filosófica, sociológica etc., já temos os conceitos necessários e suficientes para efetuarmos estudos críticos sobre discursos/textos que falem de diversos assuntos. Nos dias atuais não precisamos mais ter medo do biologismo. Usar a ecologia geral como base para os estudos culturais (e linguísticos) é assumir o ponto de vista da vida, justamente estudada pela biologia, de que a ecologia geral (e a linguística) faz parte.
Devemos lutar inclusive contra a depredação da natureza não animada. Se não cuidarmos das águas, por exemplo, elas podem ser poluídas a tal ponto que podem envenenar não só a nós, mas também aos demais seres vivos. Elas podem mesmo desaparecer, com o que todos pereceriam. Do mesmo modo devemos ter cuidado para não poluir o ar demasiadamente. Do contrário não teremos oxigênio para respirar. Não devemos usar determinados produtos que causam o efeito estufa, pois, do contrário, poderemos morrer todos assados ou, então, com câncer de pele. Não se trata de uma visão apocalíptica nem catastrofista. Trata-se de ser realista. O que já vimos até agora aponta claramente para essa direção. Por que não assumir uma atitude de prudência?

7. Mini-análise de um texto abstrato
Analisar textos/discursos ambientais, antiambientais e pseudoambientais não apresenta grandes problemas. Isso pode ser feito a partir de qualquer perspectiva, como já foi sugerido acima. Na verdade, a AD e a ADC quando se debruçam sobre questões desse tipo fazem-no como qualquer modelo faria, envolvendo questões ideológicas. A ADE, por seu turno, em princípio pode ser usada para a análise de qualquer tipo de texto, inclusive textos abstratos. É o que vou tentar mostrar agora a propósito de um silogismo, uma das manifestações verbais mais abstratas, que conteria apenas relações lógicas. O silogismo que vou usar é o que se vê logo a seguir, que nos foi legado pela tradição aristotélica.

Todo homem é mortal. Ora, Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal.

O “tema” do silogismo é a morte. Essa questão tem a ver diretamente com a da vida, uma vez que uma só existe em relação à outra. Quando falamos em vida, estamos deixando implícita a morte, pois, só os seres vivos morrem. Com isso já estamos nos aproximando da visão ecológica de mundo, uma vez que a vida é estudada pela biologia, de que a ecologia faz parte.
De acordo com a definição de dicionário, silogismo é um “raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições, ditas premissas, das quais, por inferência, se obtém necessariamente uma terceira, chamada conclusão”, como está dito no Houaiss. Como nos ensinam os manuais de lógica, ele não descreveria nada, seu valor estaria apenas nas relações lógicas. Vejamos os itens lexicais do silogismo, ou seja, homem, Sócrates e mortal. Os dois primeiros se referem a algo existente no mundo natural, enquanto que o terceiro reporta-se a qualidade, propriedade ou atributo de entidades nele existentes. Esse fato já fora apontado por Russel (1982: 56-57), reportando-se a Parmênides. Portanto, os três pilares do argumento remetem ao mundo natural, de modo imediato. Sem eles não haveria a menor possibilidade de conexão lógica. Enfim, como já haviam demonstrado os pensadores da Port-Royal, só há conexão lógica entre entidades reais do mundo real. Sem essas conexões com o mundo real (referência, significação), o silogismo seria ininteligível.
O silogismo é constituído de três sentenças afirmativas. Como alguns linguistas e filósofos da linguagem têm demonstrado, todo enunciado afirmativo é uma resposta a alguma pergunta, mesmo que tácita. No caso, os enunciados todo homem é mortal, Sócrates é homem e Sócrates é mortal certamente surgiram como uma pergunta filosófica, mesmo que não formulada explicitamente. No caso, teríamos algo como todo homem é mortal?, Sócrates é homem? e Sócrates é mortal? Com isso, os enunciados do silogismo entram indiretamente no núcleo da linguística ecossistêmica, e da ADE/LEC, que é a ecologia da interação comunicativa. Trata-se de algo como os provérbios. Os paremiólogos têm demonstrado que minitextos como água mole em pedra dura tanto bate até que fura devem ter sido proferidos em algum ato de interação comunicativa concreto, que deve ter se dado em algum momento do passado. Nesse caso, eram resposta a perguntas, mesmo que tácitas, do tipo água mole bate em pedra dura?, água mole fura pedra dura? etc.
De novo como nos provérbios, na primeira vez em que o texto do silogismo foi produzido havia um falante dizendo isso a um ouvinte, em algum lugar da antiga Grécia. Vale dizer, nesse momento inicial ele foi parte de uma ecologia da interação comunicativa completa, que incluía um cenário. Infelizmente, porém, não temos como recuperar essa EIC. Só podemos deduzir que ela deve ter existido pelo fato de o “enunciado” vir sendo repetido ao longo da história. Se vem sendo repetido, deve ter havido uma primeira repetição, um momento posterior ao primeiro, aquele em que ele foi proferido pela primeira vez. Enfim, a dimensão histórica também é importante, e aqui vale a pena voltar ao texto de Bertrand Russel recém-mencionado. 
Quanto aos conectores lógicos, podem ser interpretados em termos de inclusão, como se vê na figura abaixo (o da esquerda está contido no da direita):

"Sócrates" > "homem" > "mortal"

Como se vê, Sócrates é um ser vivo, humano, que pertence à classe homem. Este último, por seu turno, pertence à classe dos seres vivos que, por sê-lo, morrem, são daquele tipo de ser que é mortal. Ora, a inclusão é algo que existe na natureza independentemente de qualquer outra coisa ou ser vivo que possa intervir nele. Couto (2007: 140) menciona o caso do caroço no interior de uma fruta. Ele está lá sem que ninguém o tenha colocado, sem que haja ninguém para observá-lo, ou para criá-lo discursivamente. É uma das relações mais primitivas, no sentido de originais. É a relação por excelência. Tanto que a preposição que a codifica, em/dentro de, existe em todas as línguas do mundo e é uma das primeiras a ser adquirida pela criança. Vale dizer, até as “relações lógicas” têm a ver com o mundo natural em que se desenrola o drama da vida.
Uma diferença fundamental entre a interpretação da ADE e a da AD(C) é que a primeira parte da ecologia da interação comunicativa como um todo, não apenas do produto dessa interação. Esse produto aparece sob a forma de texto, que é considerado a materialização do discurso. Por ser parte da linguística ecossistêmica, o ponto de partida da ADE não é esse produto que, no fundo no fundo, é uma “coisa”. Para terminar, é importante repetir que não foi necessário recorrer a nenhuma ideologia que não a da vida nesse esboço de análise.  


8. Conclusões e perspectivas
Pode parecer que a proposta de mais um modelo de análise do discurso seria desnecessária, uma vez que já existem tantos no mercado. A tal ponto que frequentemente eles se digladiam entre si. Como já se disse a propósito do funcionalismo em linguística, eles são um conglomerado de teorias que só têm em comum a oposição ao papa. No caso, o papa é o estruturalismo, sobretudo o gerativismo. Eu tenho plena convicção de que a ADE/LEC traz novas ideias para a análise do discurso, isenta de ideologias político-partidárias, religiosas etc. Melhor dizendo, a ADE/LEC parte da ideologia da ecológica. Como foi enfatizado em diversas passagens acima, a AD tradicional se baseia direta e indiretamente na ideologia marxista. Ora, essa ideologia é uma das piores partes do marxismo. Diversas outras categorias do materialismo dialético são perfeitamente assimiláveis pela visão ecológica de mundo aqui perfilhada. Entre elas temos a da totalidade, que lembra o holismo ecológico, e a dialética, que se assemelha às interações ecológicas. 
Há basicamente dois tipos de estudos científicos válidos. O primeiro é aquele que traz dados novos, como quando a física descobre um novo corpo celeste, um novo planeta, uma nova galáxia. Infelizmente, porém, no âmbito das ciências humanas não é possível descobrir fatos novos. Mas é possível apresentar uma nova interpretação para fatos já interpretados por outros modelos teóricos. Se essa nova interpretação for mais interessante do que as anteriores, o modelo teórico pode ser considerado válido. Caso contrário, ele pode ser descartado. Eu estou convicto de que a ADE pode lançar uma nova luz sobre o mercado da análise do discurso. Pode até acontecer de ela não pegar, ou seja, não ser aceita e/ou não ser considerada como válida, mas que ainda não existia uma proposta de análise de discursos partindo da visão ecológica de mundo, isso lá é verdade.

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[Publicado no livro Antropologia do imaginário, ecolinguística e metáfora. Brasília: Thesaurus, 2014, organizado por Elza Kioko Nakayama Nenoki do Couto, Ema Marta Dunck-Cintra, Lorena Araújo de Oliveira Borges, p. 27-41]